(siu.) • 13/01/2026
Um singelo beijo na bochecha direita, caracterizado pelo sorriso tímido adjunto do “bom dia, tudo bom?”. A gente nem se esforça pra responder, muito menos pra ouvir. É tão automático quanto a rotina de ajustar a cadeira, ligar o computador, tirar o mouse e o teclado sem fio da base do armarinho -dando ar de limpeza e organização ao escritório e, óbvio, impossível esquecer dos sucessivos minutos scrollando o feed e lendo as mensagens da noite passada. Tudo enquanto o computador inicia. Foi um lacrimejo significativo que parou a conversa rotineira. Nem a máquina de café, modesta na sua tarefa, arriscou borbulhar qualquer ruído que ressoasse na repartição. Neuzinha tinha uma notícia triste no seu celular, de um chat qualquer, só sabemos que é relacionado a sua filha. O lacrimejo, antes reservado a Neuzinha, deixou de ser só dela. É como se, sem fumar, tivesse aceso um cigarro, com aroma fúnebre, tocando os quatro cantos da sala. “Vai ficar tudo bem”, “Vou incluir ela nas minhas orações”, “Se precisar de alguma coisa, é só falar, tá bom?”, “Estamos aqui por você”. “Neuzinha, você sabe onde foi parar aquele processo de ontem? Maria Aparecida se não me engano, deve ser aquele!”. Outro funcionário, outro bom dia e outro computador. Neuzinha ajustou seus óculos, abriu o SGH e pesquisou pelo processo-”Subiu pra controladoria”. É uma mulher assumidamente supersticiosa, creditava seus sonhos como quem vai ao médico. Talvez o mais emblemático deles fosse o do ônibus: quem conduzia era o Thulio (até então, assessor do presidente) e todos nós, inclusive eu, que era novo na repartição, estávamos nessa viagem. Segundo a Neuza, em determinado momento, o Thulio simplesmente “abandonou o barco” (lembro bem dessa frase). Dito e feito, na mesma semana estávamos marcando a despedida do Thulio, que migrava de repartição. Neuzinha estava quieta, como de costume, não saia do seu canto a não ser que fosse chamada-funcionário de carreira é assim mesmo, falta 1 ano para aposentar! Eu vi todo mundo se recolhendo e começando mais um [longo] dia de trabalho. Como eu amo isso aqui! São casos delicados da habitação que perpassam todas as problemáticas que nela se inserem: uma mulher de 46 anos de idade senta na minha frente (a aparência é de 60), está com a filha de 12 anos na cadeira ao lado. Não trouxe documentos de identidade ou comprovante de endereço e nem a filha mais velha, de 18 anos. Como eu vou falar desse caso sem ser indelicado? A mãe e as duas filhas possuem o mesmo genitor; a primogênita (de 18 anos) ateou fogo na casa onde moravam. O boletim de ocorrência, único documento na mesa, descreveu o objetivo das cinzas; estavam ali: paradas na minha frente. Ocorre que, no processo, a casa foi e os alvos ficaram. Percebi que Neuzinha vacilava entre o jogo de Paciência, uma atribuição proativa, que ela mesma escolheu, e o próprio celular, maquinário de angústia com capinha cor-de-rosa e papel de parede florido. Como era fofa essa capinha! Sem contar a cena que já havia visto repetidas vezes: surge num esgueiro corporal repentino, onde tira, em contraste cuidadoso, o fone de ouvido branco da gaveta inferior direita, inconvenientemente baixa, era um martírio que findava no desenrolar do fio. Inseriu o fone no celular e, no whatsapp, buscava algum contato específico. O parecer já havia sido dado muito antes da mãe e filha entrarem no prédio, fora os detalhes que prefiro esconder e assuntos que, uma vez esclarecidos, prefiro nem tocar. O resto são formalidades do acaso, como três assinaturas: declaração de renda, declaração de despesas e orientações de compromisso do programa auxílio aluguel. Algo estranhamente comum dessa situação era o dia nublado. Meu casaco, cinza, copiava as nuvens que tanto admiro e, assim como o tempo, era mera formalidade, produto do acaso. Não que não existam leis da natureza que, por acaso, também são acaso, mas, para muito além das leis da natureza, existe a lei da preguiça: um aglomerado de acasos que fizeram o casaco cinza aparecer antes de qualquer outro casaco, e o contato que Neuzinha procurava também, antes (ou depois) de qualquer outro contato. Não entendi muito bem o conteúdo da chamada, mas era relacionado ao caso da filha que, aparentemente, por conta de uma briga, perdera contato com o irmão. Deduzi que o contato era o próprio filho. Vi o peso das nuvens surgindo nos olhos da Neuza-“Sonhei com ela hoje também, tenho mal pressentimento, por que não vem visitar sua irmã?”. Era tudo que eu precisava pra terminar o relatório. Acompanhei irmã e filha até a recepção-”Vai ficar tudo bem!”.